O capitalismo estratégico da China: alterando as regras do jogo no setor das terras raras
No competitivo mundo da indústria global das terras raras, a China emergiu não só como um interveniente dominante, mas também como a artífice de um campo de ação desequilibrado.
Enquanto o Ocidente costuma encarar o capitalismo como um sistema de mercados livres e concorrência leal, a China aperfeiçoou um modelo híbrido — o capitalismo estratégico — que combina o controlo estatal com os mecanismos de mercado para garantir uma vantagem sem igual ao longo de toda a cadeia de abastecimento, desde a mineração até aos ímanes.
Ao tirar partido de subsídios, integração vertical e manobras geopolíticas, a China transformou os princípios do capitalismo em instrumentos de domínio nacional, obrigando os concorrentes a reagir às pressas.
Terras raras: a base da reviravolta
Os elementos de terras raras (REE) – 17 metais essenciais para tecnologias que vão desde smartphones a caças a jato – são a força motriz da indústria moderna e os pilares das políticas governamentais e das macrotendências globais relacionadas com a eletromobilidade, as energias renováveis e a automação.
A China é responsável por cerca de 60 % da produção mundial de minério de elementos de terras raras e por mais de 90 % da produção de refinação e de ímanes, uma posição que construiu meticulosamente ao longo de décadas. Ao contrário das empresas ocidentais, movidas por lucros a curto prazo e pelas exigências dos acionistas, as empresas chinesas apoiadas pelo Estado operam com uma visão de longo prazo e com a disposição de absorver prejuízos para garantir o controlo do mercado.
Nas décadas de 1980 e 1990, a China inundou o mercado global com elementos de terras raras (REE) a preços baixos, praticando preços mais baixos do que os dos seus concorrentes, como a mina Mountain Pass, sediada nos EUA, que encerrou as suas atividades durante um período a partir de 2002. Não se tratou de uma ineficiência do mercado – foi uma estratégia predatória calculada.
Os subsídios, as normas ambientais pouco rigorosas e as empresas estatais permitiram que as empresas chinesas vendessem abaixo do custo, eliminando efetivamente a concorrência estrangeira.
Hoje, enquanto o Ocidente reconhece tardiamente os elementos de terras raras como ativos estratégicos, a China detém a vantagem: pode restringir as exportações (como fez com o Japão em 2010 devido a um conflito territorial) ou inundar o mercado com oferta excessiva para fazer descer os preços, sufocando os rivais emergentes.
Moldar o capitalismo, não destruí-lo
A estratégia da China não rejeita o capitalismo – ela reformula-o. Aproveita-se do compromisso do Ocidente com os mercados abertos, ao mesmo tempo que protege a sua própria economia através de controlos às exportações, direitos aduaneiros e estratégias relacionadas com a propriedade intelectual.
A Iniciativa «Belt and Road» (BRI) amplia esta vantagem, vinculando países ricos em recursos à esfera de influência da China através de empréstimos para infraestruturas que estes não conseguem reembolsar — basta pensar nas minas de cobalto da Zâmbia ou nas barragens hidroelétricas do Laos.
Não se trata de acordos motivados exclusivamente por fatores de mercado; são movimentos estratégicos para garantir recursos e influência.
Entretanto, as empresas chinesas apoiadas pelo Estado operam com uma unidade de objetivos que as empresas ocidentais, limitadas pela concorrência e pelos resultados trimestrais, não conseguem igualar.
Quando as tensões aumentam, como aconteceu com o Japão em 2010 e com os EUA atualmente, Pequim utiliza o seu domínio sobre as cadeias de abastecimento de minerais essenciais como arma geopolítica, deixando claro que o seu poder económico funciona também como meio de pressão.
Não se trata da «mão invisível» de Adam Smith; trata-se de um controlo deliberado sobre a cadeia de abastecimento global.

O dilema do Ocidente e o custo da recuperação
A resposta do Ocidente tem sido prejudicada pelos seus próprios princípios capitalistas. Os defensores do mercado livre opõem-se ao tipo de política industrial adotada pela China, enquanto as regulamentações ambientais e os custos laborais mais elevados travam os esforços para restabelecer a capacidade produtiva.
Iniciativas como as tarifas de importação dos EUA sobre os ímanes de terras raras chineses e a Lei Europeia sobre Matérias-Primas Críticas visam contrariar a vantagem da China, mas estão a tentar recuperar o atraso face a uma vantagem inicial de décadas.
A criação de novas minas de terras raras, refinarias e fábricas de ímanes leva anos e custa milhares de milhões – recursos que o Ocidente só agora está a mobilizar, à medida que a China reforça o seu domínio.
Adaptar-se ou ficar à margem
O domínio da China não é inatacável. O aumento dos custos internos, as pressões ambientais e as reações geopolíticas oferecem oportunidades aos concorrentes.
No entanto, o seu capitalismo estratégico – paciente, coordenado e sem complexos – redefiniu o setor das terras raras.
A China não se limita a competir no mercado; ela molda-o, contornando as regras do capitalismo para garantir que o equilíbrio se incline decisivamente a seu favor. O Ocidente enfrenta uma escolha difícil: adaptar-se a esta nova realidade ou ficar à margem, enquanto a espinha dorsal da tecnologia do século XXI permanece firmemente sob o controlo de Pequim.
O que é que se odeia: o jogador ou o jogo?
A ascensão da China na indústria das terras raras suscita uma questão incómoda: devemos culpar o jogador ou o próprio jogo?
A abordagem de Pequim — implacavelmente pragmática e orientada pela visão de futuro — revela menos uma falha no seu próprio sistema e mais uma vulnerabilidade na adesão rígida do Ocidente aos ideais do laissez-faire.
Como referido acima, a China não está a destruir o capitalismo; está a adaptá-lo, agindo dentro das regras de um mercado global que valoriza a escala, a paciência e a coordenação em detrimento da pureza a curto prazo.
O Ocidente, preso aos lucros trimestrais e avesso à intervenção estatal, deixou-se vulnerável a um rival disposto a utilizar o capitalismo como instrumento de governação.
Talvez a verdadeira crítica não seja dirigida à astúcia da China, mas sim a um modelo ocidental que confundiu coerência ideológica com força, apenas para se ver ultrapassado num campo que ajudou a conceber.
Podes detestar o resultado, se quiseres – mas o jogo sempre esteve lá para ser disputado.
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